Há exatamente um ano e meio, viajei do Japão para o Brasil, mais precisamente de Osaka até Guarulhos, São Paulo.
Mas até aí tudo bem, quantas pessoas fazem esse roteiro diariamente. Até então nada mais comum não é mesmo?
Não, não é!
O que eu quero dividir com vocês é o fato de que necessitei do uso de cadeiras de rodas, não entrarei em detalhes do motivo, isso é assunto para outra conversa.
Se você é cadeirante, ou possui alguma necessidade especial esse papo pode te interessar.
Ao agendar seu vôo já especifique a necessidade de auxílio ao cadeirante. Se for apenas para evitar o longo percurso à pé por inúmeras razões, é só solicitar esse serviço que NÃO é cobrado. Se caso o cadeirante necessita da sua cadeira sem poder locomover-se, como ir ao banheiro sozinho, etc basta apresentar a carteira de deficiente ( que aliás pra mim não tem nada de deficiente). Algumas empresas aéreas fazem descontos para os acompanhantes nesses casos.
Nas terras estrangeiras, não tive problema algum, nessa viagem passei por Dubai, toda uma infra- estrutura para acomodar , os necessitados de RESPEITO!
Elevadores, auxiliares capacitados e uma maravilhosa sensação de estar bem cuidada e protegida.
Todos davam licença, ninguém competia em ser o primeiro em nada.
Fui bem tratada, entrava primeiro a aeronave, bem recebida e muito bem cuidada..
Mas nem tudo são flores...
Desembarquei em Guarulhos, o menino muito atencioso me esperava na saída da aeronave. Com uma placa escrito meu nome. Todo sorridente e amigável como é o povo brasileiro e depois de quatorze anos longe de casa, sentia o mau humor da chuva que me recebia.
O garoto então, pôs-se a caminhar, empurrando a máquina inseparável que fazia a vez das minhas pernas e eu era grata a ela.
Fomos ao desembarque das malas.
Ahhh!!! Que ali que vi que estava no Brasil. Me perdoem os bons.
Ninguém nos deixava passar, ninguém sequer movia um centímetro de bunda gorda da minha frente. Porque é isso que nós vemos.
O Anderson, garoto que me levava, começou a irritar-se. Dizendo-me o quanto se envergonhava daquilo. Pois era o trabalho dele. Levar as pessoas em suas pernas postiças até seu destino final.
E me relatou que era sempre assim. Sempre do mesmo jeito.
Colocou-me então num "canto" , e me disse: - Não saia daí senhora, por favor!"
Respondi:
- Pode deixar que não vou a lugar nenhum, apontando para a cadeira se rodas.
Ele riu e eu também!
Seguiu sorridente procurando por minhas malas na esteira. Brigando e lutando com os passageiros que desesperadamente procuravam por suas bagagens.
Mesmo eu no "canto", tentando não atrapalhar ninguém, aproximou-se uma mulher que tinha vindo no mesmo vôo que eu e literalmente pulou sobre mim.
E ainda dizem que quem mora no exterior tem mais educação. Talvez ela tenha esquecido no Japão.
Lamentável.
Imaginaram a cena?! Então espera porque fica pior, além dela pular sobre mim e a minha cadeira de rodas, ela puxa uma mala, tipo sacolão, ( só poderia ser né) e aquilo veio com tudo no meu joelho. Vi a via láctea inteira naquele momento.
E eu não sei de onde apareceram tantos homens de preto a minha volta.
O menino Anderson, ficou pálido, e me pedia desculpas e mais desculpas. Um dos "homens de preto" me perguntou se eu queria fazer algo a respeito.
Olhei pra cara dessa mulher, cara mesmo, porque gente tem rosto e nem posso classificá-la como animal que seria uma covardia para com os animaizinhos. Talvez um projeto de ameba?
A mulher olhou para todos nós e disse apenas: -"Eu não vi!"
Meu Deusssss!!! Ela não viu uma cadeira de rodas, ela não viu uma pessoa ali, sem esquecer que na época eu estava de cabelo ROXO. Então, não viu?!
Olhei para os policiais e para ela e apenas respondi, "que você nunca passe por isso".
Seguimos até a alfândega, mas ninguém nos dava licença, praticamente tínhamos que atropelar quem estava a nossa frente.
O Anderson me levava e levava junto as minhas malas de trinta quilos cada uma e a mala de mão com mais cinco quilos.
E eu dizia; - Passa por cima!"
É claro que ele não fazia isso. Mas a vontade era imensa.
Passei pela alfândega, fui bem cuidada pelos funcionários, não posso reclamar. Todos me trataram com muito carinho, respeito e atenção.
Cheguei no saguão e vi meus pais, tudo passou a ser mínimo em comparação à felicidade que eu senti.
E o Anderson me deixou na porta do carro.
Não são todos maus, claro que não.
Você que não é cadeirante, que pode sair por aí pulando cadeiras de rodas e dizer que não vê, lembre-se que ninguém está livre de uma fatalidade. Não estou pedindo pra você ceder o
SEU lugar, apenas dê licença que nós queremos passar.
Não estacione nas calçadas, nas rampas, nos acessos destinados a nós. Vocês não precisam delas. Porque assim nós não cruzaremos seus caminhos. Então na verdade quem atrapalha são vocês e não nós.
Não sou cadeirante, mas posso vir a ser, ninguém está livre de um dia precisar.
Isso não é um fato isolado, acontece todos os dias na rua da sua casa, na escola do seu filho, seu tio, avó, etc.
Não seja quem não vê! Não finja que não vê. E não precisa ter piedade, ou compaixão, RESPEITO já está de bom tamanho.
Márcia Hany
Agradecimentos especiais à companhia Emirates e a todos os funcionários dos Aeroportos de Dubai e Guarulhos.
Muito obrigada!
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